O acesso ao crédito deixou de depender apenas da disposição de uma empresa para tomar recursos. Em um ambiente de custo financeiro elevado e maior atenção ao risco, instituições passaram a observar com mais cuidado a capacidade de pagamento, o histórico das operações e a qualidade das garantias. Esse movimento ajuda a explicar por que empresas também estão mais seletivas ao decidir quando, quanto e de que forma captar dinheiro.
Pedro Daniel Magalhães, executivo e advisory da área de finanças, acompanha um mercado em que a análise da dívida ganhou peso dentro das decisões corporativas. O Banco Central registrou, em dados recentes divulgados, a taxa média de 25,3% ao ano no crédito livre para pessoas jurídicas, além de inadimplência de 2,8% nas operações com empresas.
O crédito ficou mais caro e exige mais critério
A mudança mais perceptível está no custo. Quando as taxas de juros permanecem elevadas, contratar recursos para financiar uma expansão, reforçar o caixa ou antecipar recebíveis passa a exigir uma conta mais detalhada sobre o retorno esperado. A dívida precisa caber no fluxo financeiro futuro, e não apenas resolver uma necessidade imediata.
Esse ambiente altera a relação entre empresas e instituições financeiras. Para quem concede o recurso, a capacidade de pagamento precisa ser compatível com o risco assumido. Para quem toma, comparar condições passou a ser igualmente importante. Prazo, garantias, indexadores e cronograma de amortização podem mudar significativamente o impacto de uma operação sobre o caixa.
A seletividade, portanto, não representa apenas uma redução da oferta. Ela também modifica a forma como o crédito é utilizado. Empresas com planejamento financeiro mais estruturado conseguem identificar melhor quando uma dívida pode sustentar uma operação e quando ela apenas adia um problema.
A análise de risco ganhou mais peso
O comportamento recente da inadimplência ajuda a entender essa cautela. Em janeiro de 2026, o Banco Central registrava inadimplência de 3,2% no crédito livre às empresas, percentual que havia aumentado 0,7 ponto percentual em um ano. Meses depois, os dados de abril mostraram 2,8% na carteira total de crédito para pessoas jurídicas, ainda com alta de 0,3 ponto percentual em 12 meses.
Nesse cenário, a análise de crédito tende a considerar mais elementos do que faturamento ou patrimônio. Fluxo de caixa, concentração de receitas, nível de endividamento, vencimentos futuros e capacidade de geração de recursos ajudam a formar uma visão mais completa da situação financeira.

Tal como alude Pedro Magalhães, essa mudança reforça a importância de separar necessidade de crédito de capacidade de crédito. Uma empresa pode precisar de dinheiro e, ainda assim, não estar em uma posição adequada para assumir determinada obrigação. O ponto decisivo está na compatibilidade entre a dívida pretendida e a estrutura financeira existente.
Empresas também passaram a escolher melhor
A maior seletividade não acontece somente do lado de bancos e investidores. Diante de custos financeiros mais altos, as próprias companhias precisam decidir quais projetos merecem recursos e quais podem esperar. O efeito aparece especialmente em investimentos que dependem de financiamento para gerar retorno ao longo de vários anos.
A política monetária influencia diretamente esse comportamento. O próprio Banco Central explica que juros reais mais elevados tendem a reduzir investimentos das empresas e o consumo das famílias, afetando a demanda da economia. Assim, a decisão de captar crédito passa a considerar também o comportamento esperado do mercado consumidor e das receitas.
Esse cuidado muda a lógica de planejamento. Em vez de buscar recursos sempre que surge uma oportunidade, a empresa pode estabelecer prioridades, preservar liquidez e concentrar capital em projetos com maior previsibilidade de retorno. A seletividade passa, então, a fazer parte da gestão financeira.
Estrutura de capital entra no centro da decisão
Outro aspecto importante é a composição da estrutura de capital. Uma empresa pode utilizar recursos próprios, empréstimos, financiamentos ou instrumentos de crédito estruturado. Cada alternativa produz efeitos diferentes sobre custos, prazos, garantias e exposição financeira.
O problema aparece quando o crescimento do endividamento não acompanha a capacidade de geração de caixa. Mesmo uma companhia com atividade operacional saudável pode enfrentar pressão se concentrar muitos vencimentos em períodos próximos ou contratar recursos com prazos incompatíveis com o ciclo do negócio.
Por isso, a análise conduzida por Pedro Daniel Magalhães coloca a estrutura financeira como parte da decisão sobre crédito. Antes de contratar uma nova obrigação, é necessário entender o que já existe no balanço, quais compromissos vencerão nos próximos períodos e quanto da geração de caixa ficará comprometida.
O novo crédito exige uma estratégia mais clara
O cenário atual não significa que as empresas deixaram de ter acesso ao crédito. O que mudou foi o grau de atenção dado à qualidade da operação. Instituições financeiras, fundos e demais agentes precisam avaliar riscos, enquanto companhias precisam demonstrar capacidade de pagamento e justificar economicamente a utilização dos recursos.
Pedro Magalhães indica que esse ambiente torna o planejamento uma etapa anterior à captação, e não uma providência posterior. Mapear necessidades, organizar vencimentos, projetar diferentes cenários e comparar fontes de recursos pode reduzir decisões tomadas sob pressão.
Na prática, a maior seletividade pode levar as empresas a buscar menos crédito, mas com objetivos mais definidos. Em vez de medir uma boa operação apenas pelo dinheiro que entra no caixa, passa a ser necessário observar o que esse recurso produzirá, quanto custará e como será devolvido. Para empresas que desejam preservar capacidade de investimento, essa mudança de postura pode ser tão importante quanto encontrar uma nova fonte de financiamento.
