Poucos exercícios físicos são tão desconfortáveis e tão reveladores quanto um teste de limiar funcional de potência. Rolando Bonaccorsi, diretor de operações que também é ciclista amador dedicado, compara os vinte minutos de esforço máximo exigidos por esse teste a certas reuniões de crise: o corpo revela sua verdadeira capacidade justamente no momento em que não há mais espaço para blefe.
O FTP, sigla para functional threshold power, mede a maior potência que um ciclista consegue sustentar por aproximadamente uma hora sem entrar em exaustão. Popularizado pela obra de referência de Coggan e Allen, esse número virou a base de praticamente todo planejamento sério de treino, definindo zonas de esforço e metas de evolução ao longo de temporadas inteiras.
O que o número realmente representa?
Diferente da frequência cardíaca, que reage com atraso e sofre influência de calor, sono e estresse, a potência medida em watts oferece um retrato imediato e objetivo do esforço aplicado. Um medidor instalado no pedal ou no eixo central captura esse dado em tempo real, permitindo treinar por zonas calibradas a partir do próprio FTP, em vez de depender de sensações subjetivas.
Para Rolando Bonaccorsi, essa objetividade torna o treinamento por potência atraente para um perfil executivo acostumado a decisões orientadas por dados. Assim como um painel de indicadores operacionais revela a saúde real de um sistema, o medidor de potência remove a ilusão de esforço e mostra o que o corpo está de fato entregando.
Gestão de energia: a lição que se repete fora da bicicleta
Ciclistas experientes sabem que o erro mais comum em provas longas não é pedalar devagar demais, mas começar rápido demais e pagar caro nos quilômetros finais. Esse pacing errado tem paralelo direto com a forma como muitos executivos conduzem projetos complexos: intensidade máxima nas primeiras semanas e esgotamento evidente quando a resistência realmente importa.
Sob a ótica de Rolando Bonaccorsi, a disciplina de respeitar zonas de potência ensina uma lição de gestão de energia que se aplica diretamente à liderança de equipes em projetos longos. Assim como um ciclista que ultrapassa seu limiar acumula fadiga que compromete o restante da prova, um líder que exige ritmo insustentável nas fases iniciais corre o risco de não ter resposta na fase crítica.
Periodização: planejar o esforço em vez de improvisá-lo
A periodização do treino, que alterna blocos de carga intensa com fases de recuperação estruturada, existe porque o corpo não responde bem a estímulos constantes de mesma intensidade. Aplicar carga sem período de assimilação leva à estagnação e, eventualmente, a lesões ou overtraining.
No entendimento de Rolando Bonaccorsi, equipes submetidas a ciclos permanentes de urgência, sem períodos deliberados de desaceleração, tendem a apresentar o equivalente corporativo de overtraining: queda de produtividade e rotatividade elevada. Por isso, planejar deliberadamente fases de menor intensidade não é sinal de falta de ambição, mas condição necessária para sustentar performance elevada ao longo do tempo.
Tomada de decisão sob fadiga
Nos minutos finais de um teste de FTP, a tentação de desistir ou reduzir o ritmo aparece exatamente quando manter a potência é mais importante. Ciclistas experientes desenvolvem estratégias mentais específicas, como dividir o esforço em blocos menores e focar em metas de curtíssimo prazo, técnica de fragmentação cognitiva sob fadiga amplamente estudada também em contextos de alta pressão profissional.
Rolando Bonaccorsi relaciona essa estratégia à forma como decisões críticas deveriam ser conduzidas durante uma crise operacional prolongada: dividir o problema em etapas gerenciáveis e reconhecer, com honestidade, o momento em que a fadiga começa a comprometer o julgamento. Tanto no ciclismo quanto na liderança, manter clareza sob esforço sustentado separa quem participa de quem entrega resultado.
O ciclismo de estrada, especialmente em sua vertente mais analítica e orientada a dados, oferece um laboratório pessoal de gestão de energia, planejamento e tomada de decisão sob pressão. Não por acaso, tantos executivos encontram no esporte não apenas uma forma de manter a saúde física, mas um espaço de reflexão sobre como conduzem suas próprias equipes.
